segunda-feira, 17 de junho de 2013

O Rio de Janeiro Não é Mais Tão Lindo I


Segundo preceitos básicos de planejamento e boa administração, toda obra pública deve ser ambientalmente sustentável, economicamente viável e socialmente desejável. Tudo que o Centro de Tratamento de Resíduos (CTR) de Seropédica não é.

Inaugurado pelo governo em 2011 como sendo a mais moderna estação de tratamento de resíduos da América Latina, a CTR de Seropédica se mostrou na verdade um símbolo do mau planejamento (vamos confiar na honestidade dos governantes) que impera em todas as esferas do nosso governo.

Com a decisão de encerrar as atividades no Aterro de Gramacho e vendo barrada por pressão política a intenção de construir a CTR em Paciência (zona oeste...) o local escolhido acabou sendo Seropédica.

De maneira pouco estratégica a região escolhida foi justamente a área de recarga do Aqüífero Piranema, local de solo arenoso com alta permeabilidade. Esse fato fez com que alguns ambientalistas se preocupassem com a possibilidade do chorume, que é um resíduo liquido do tratamento do lixo com alta concentração de metais pesados, pudesse infiltrar pelo solo até atingir o aqüífero.

O contrato de licenciamento para administração da CTR previa que a empresa ganhadora construiria uma usina de tratamento de chorume no local. No entanto, dois anos após a inauguração a Ciclus, empresa que ganhou a licitação, ainda não cumpriu essa exigência.

Aparentemente a Prefeitura de Seropédica tem uma relação muito próxima com a empresa, uma vez que, segundo o site da Associação dos Docentes da Rural (http://www.adur-rj.org.br/5com/pop_2013/carnaval.htm), a empresa foi uma das patrocinadoras do carnaval da cidade.

O fato é que Seropédica recebe 9 milhões de toneladas de lixo por dia que geram 150 mil litros de chorume. Como não existe a tal usina de tratamento o resíduo é levado por caminhões até a Estação de Tratamento de Esgoto (vejam bem, esgoto não é o mesmo que chorume) de Icaraí/Niterói. A carga é transportada através de 150 km até chegar a ETE onde o chorume é tratado junto com o esgoto e jogado na Baía de Guanabara. O custo dessa operação é de R$80,00/m³ transportado.

O orçamento para a construção da usina para tratar o chorume é de R$35 milhões. Tá certo que a construção deve ser realizada pela Ciclus, mas só como comparação o valor gasto com a “reforma” do Maracanã, que será repassado praticamente de graça para um consorcio de empresas privadas, seria suficiente para construir 32 Usinas de Tratamento de Chorume, cuja inexistência gera um passivo ambiental enorme.

Bola fora das prefeituras do Rio de Janeiro, Seropédica e do Governo do Estado.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

sexta-feira, 8 de março de 2013

O melhor para o pior

 

Ouça-me bem, amor
Preste atenção, o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos, tão mesquinho
Vai reduzir as ilusões a pó
 
Preste atenção, querida
De cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares estás à beira do abismo
Abismo que cavaste com os teus pés

Trecho de “O mundo é um moinho”, música de Cartola.

Spoilers para GOT

Existe uma série de livros chamados As Crônicas de Gelo e de Fogo, esses livros inclusive viraram um série chamada “The Game of Thrones” que está sendo exibida no canal HBO. Uma passagem em um desses livros chamou bastante a minha atenção e recentemente tem vindo bastante à mente, é uma passagem na qual um anão que é retratado no livro como promíscuo, brincalhão e muito feio revela que já foi casado quando mais novo e como esse relacionamento terminou, essa revelação, vale destacar, é feita a uma prostituta que costuma atendê-lo. Ocorreu da seguinte forma, o anão tinha por volta de seus 16 anos e era virgem, não tinha tido qualquer relacionamento afeto amoroso com alguma mulher, vendo o anão nessa situação o irmão dele, de estatura normal e retratado no livro como um jovem dentro dos padrões mais altos de beleza e por tal muito apreciado pelas mulheres, resolve ajudá-lo.

Em um dia aleatório saem os dois a cavalgar por alguma estrada na floresta (o livro se passa numa época medieval), e de repente ouvem gritos femininos vindos da  floresta, o irmão do anão dá grande importância ao fato, mas o anão parte em socorro floresta a dentro, chegando ele se depara com uma jovem sendo atacada por alguns homens, o anão usa então sua espada, bravura e ajuda de seu irmão que partiu em seu encalço para espantar os homens antes que conseguissem violentar a moça. A moça fica muito abalada com a situação, se diz filha de algum camponês na região e fica muito agradecida com o anão, ele então a leva para sua casa para que ela seja alimentada e tenha seus ferimentos curados, nesse processo eles se “apaixonam” e o anão a pede em casamento. Porém o pai do anão, um senhor de grandes posses e influência no reino, fica indignado com a decisão do filho de se casar com uma simples camponesa, outro ponto a se destacar é que o anão já não gozava de muito prestígio com o pai, a mãe do anão morreu ao dar a luz, a opinião do pai  parece ser que o anão "deu" pelo menos dois motivos para não ser amado, “matou” a mãe ao nascer e era um anão

O pai então questiona o irmão mais velho sobre como se deu essa aproximação entre o anão e a camponesa, nesse momento da narrativa o irmão mais velho revela que tudo não passou de uma cena armada por ele para que o irmão tivesse um relacionamento com alguma mulher sem levá-lo diretamente ao prostíbulo, a camponesa era uma prostituta e os homens que a estavam atacando haviam sido contratados por ele também. Com isso o pai e o irmão vão ao encontro do anão e lhe revelam toda a verdade, ele, claro, apaixonado recusasse a acreditar, para convencê-lo da verdade o pai oferece a camponesa uma moeda de prata para cada homem que ela “servir”, e obriga o anão a assistir todo “serviço” prestado por ela, eis que quando a moça cansa de prestar o “serviço” ela já ganhou mais moedas de prata do que pudesse carregar sozinha.
Apesar de tudo o anão não consegue desgostar da camponesa e a procura pelo reino, porém não conseguindo encontrá-la em lugar algum, desiste, e partir daí abraça a vida promíscua, indo de bordel em bordel incapaz de se relacionar afetivamente de novo.

Imagino que dois sentimentos devem ser o que mais mantém o anão traumatizado, primeiro o de ter dado o seu melhor a uma mulher que não existia, não da forma que ele achava que ela era pelo menos, e segundo, a saudade dessa mulher que não existia, o paradoxo de saber que a amada nunca existiu e mesmo assim não conseguir deixar de amá-la, e até por isso ele vive com a esperança no seu interior que ela não era uma prostituta, e sim uma jovem pobre que se corrompeu perante o alto pagamento dado pelo pai (A título de comparação, uma moeda de prata comprava um cavalo no ambiente do livro).

Essa parte é a pior.



Obs: mais a frente no livro, o Anão mata a prostituta ,que ouviu esse relato, enquanto ela dormia nua na cama do pai do anão, e em seguida ele mata o pai também. Sim, uma vingança pelo caso da jovem camponesa e outros maus tratamentos dados ao anão ao longo da vida.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Sobre o bullying e sua banalização

Dessa vez não vou falar de monstros, demônios ou mundos paralelos. Mas, se tivesse que definir o assunto de hoje um pouco além de sua denominação comum, eu diria que se trata, para quem já sofreu com a coisa, de um fantasma incômodo, que se aloja em algum lugar da cabeça e, nos piores momentos da vida (ou até nos melhores), retorna como um calafrio sinistro, causando assombrações com sussurros indizíveis.

Eu acredito que esse texto fará mais sentido para quem conviveu com a coisa. Se não foi o seu caso, aviso que deverá ter a mente aberta para compreender as próximas linhas, ou tudo não parecerá nada além de um mimimi fútil, de um assunto que a mídia cada vez mais banaliza, talvez, até, com boas intenções.

De uns cinco ou seis anos para cá o assunto entrou em pauta na sociedade brasileira, importado, me parece, da cultura americana, local em que, já há algum tempo, o tema é mais debatido, devido, principalmente, aos tiroteios ocorridos na região em escolas, efetuados por alunos que foram, de alguma forma, perseguidos. As histórias, que todos conhecem, geralmente terminam com inocentes mortos e suicídio.

Mas isso está longe de ser uma regra. Infelizmente parece que se fortaleceu a ideia de que quando uma criança é perseguida diariamente em algum momento ela terá um colapso nervoso e efetuará um massacre. Isso parece acontecer devido aos principais acontecimentos que, vez ou outra, intensificam o debate acerca do Bullying, como o fantasmagórico caso da escola de Realengo ou a matança ocorrida na estreia do último filme do Batman de Cristopher Nolan.

Essa perspectiva direciona as atenções para a culpa de se estar criando um monstro. Então, se você pratica bullying, pode potencialmente ser culpado por uma ou mais mortes. A questão é que, essencialmente, esse não é o problema. Digo isso porque esses casos são raros e a ideia de que se não ocorrer um fenômeno grave como esses tudo estará bem é desprezível.

Essa perseguição pode afetar profundamente uma pessoa, inibindo o desenvolvimento de sua personalidade até o ponto de torna-la, de modo quase irrecuperável, simplesmente um ser humano triste e infeliz para o resto de sua vida. Há muitas formas para se destruir uma pessoa, e infelizmente o homem pode ser extremamente criativo. Agressões físicas, brincadeiras, apelidos...

“Ora, Leandro, que exagero. Então não posso dar apelido aos meus amigos que estarei praticando Bullying? Quanta frescura”. Esse tipo de pensamento foi um dos que mais se popularizou com a banalização do Bullying, seguindo, principalmente, desse outro: “Sempre me zoaram no colégio e eu fiquei bem. Eu aprendi a me virar. Isso é normal”. Acredito que isso tenha ocorrido por uma incorporação despreparada do assunto. Em outras palavras: virou moda falar de bullying, mas ninguém quer reservar um tempo para pesquisar e refletir a fundo do que se trata.

Se por algum motivo esse é o seu caso, quero deixar claro que não tenho a intenção de lhe ofender. Esse não é o meu objetivo aqui. Como disse, é preciso que você mantenha a mente aberta para ler esse texto e, quem sabe, ter um pensamento mais crítico sobre o assunto.

Dito isso, quero tentar explicar algo simples, mas que foi tão mal exposto nos principais meios de comunicação e tão mal absorvido pela sociedade (tanto por pessoas neutras, quanto por alunos e educadores) que se tornou extremamente deformado: zoação não é bullying. Bullying não é zoação. Pelo menos, não necessariamente.

Nos estágios que fiz em diferentes escolas, não foi raro ver que após uma ou outra brincadeira as crianças disparavam rindo :isso é bullying e o mesmo acontecia com os professores. Não sei qual é a origem do termo bullying, mas sei do que se trata. Ele é definido por qualquer comportamento consciente, repetido e hostil, cuja intenção é ferir os outros, física ou psicologicamente.

Entendam: A zoação que seus amigos ou colegas no colégio fizeram com você, amigo que acha que essa preocupação é frescura, provavelmente não poderia ser definida como bullying. O Bullying não é o ATO de zoar. Ele é o COMPORTAMENTO sistematicamente repetido com a intenção consciente de ferir o agredido. Reflita e, sinceramente, questione se foi isso que ocorreu com você. Senão, comece a se perguntar se isso é realmente normal e que inclusive “ajuda os zoados a se desenvolverem”, como já ouvi por aí.

As formas que esse comportamento adquire são múltiplas, mas seu motivo parece único: Trata-se da afirmação da sua existência através da humilhação e inferização do outro. Isso advém da crença de deter o direito de ferir ou controlar terceiros, não raro, se da também pela intolerância às minorias ou, simplesmente, às pessoas que levam um estilo de vida diferente do agressor.

Esse tipo de comportamento nunca irá formar caráter. Vejo muitas pessoas dizendo que a vítima deve aprender a se defender, a revidar, como se isso fosse resolver seus problemas e que magicamente ela não seria mais incomodada depois disso. Esse tipo de pensamento geralmente parte de quem já praticou o infeliz comportamento ou que, no mínimo, nunca sofreu com ele. É fortalecido também por uma massificação cultural, através da absorção de filmes em que a vitima de Bullying geralmente da a volta por cima, aplicando uma surra nos seus adversários e, assim, nunca sendo incomodados de novo ( O Reino Proibido, Quebrando Regra, Dragon Ball Evolution, o último Homem Aranha...).

Mas a vida não é um filme.

A prática de bullying acaba por inibir o desenvolvimento da personalidade da vítima. Cada vez menos ela se preocupa em expor quem ela é e cada vez mais busca se esconder. Tornar-se discreta e tenta eliminar qualquer vestígio do que possa ser o motivo para a contínua perseguição.

Não precisa ser um gênio para perceber que isso provavelmente a afetará na vida adulta, uma vez que carregará suas inseguranças e guardará em seu subconsciente que será atacada por aquilo que ela têm de diferente, seja lá o que for. É extremamente difícil racionalizar que, se havia um problema, ele estava em verdade nos seus agressores e não em si mesma.

Acho que é preciso também acabar com o mito de que quem sofre Bullying é/será um gênio e futuramente terá muito mais sucesso que seus antigos agressores. Isso apenas parece uma forma de se buscar um equilíbrio entre causa e efeito, mas ele é falso. Essa perspectiva fortalece o mito da construção de caráter e esse tipo de coisa deve ser combatida.

Acho que é isso. Claro que há muita coisa para se falar, mas já duvido que alguém leia até aqui.

De todo modo, eu realmente gostaria que as pessoas fossem mais empáticas. Acredito que esse seja o principal meio para se combater esse tipo de comportamento, na infância, na juventude e na vida adulta.