sexta-feira, 8 de março de 2013

O melhor para o pior

 

Ouça-me bem, amor
Preste atenção, o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos, tão mesquinho
Vai reduzir as ilusões a pó
 
Preste atenção, querida
De cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares estás à beira do abismo
Abismo que cavaste com os teus pés

Trecho de “O mundo é um moinho”, música de Cartola.

Existe uma série de livros chamados As Crônicas de Gelo e de Fogo, esses livros inclusive viraram um série chamada “The Game of Thrones” que está sendo exibida no canal HBO. Uma passagem em um desses livros chamou bastante a minha atenção e recentemente tem vindo bastante à mente, é uma passagem na qual um anão que é retratado no livro como promíscuo, brincalhão e muito feio revela que já foi casado quando mais novo e como esse relacionamento terminou, essa revelação, vale destacar, é feita a uma prostituta que costuma atendê-lo. Ocorreu da seguinte forma, o anão tinha por volta de seus 16 anos e era virgem, não tinha tido qualquer relacionamento afeto amoroso com alguma mulher, vendo o anão nessa situação o irmão dele, de estatura normal e retratado no livro como um jovem dentro dos padrões mais altos de beleza e por tal muito apreciado pelas mulheres, resolve ajudá-lo.

Em um dia aleatório saem os dois a cavalgar por alguma estrada na floresta (o livro se passa numa época medieval), e de repente ouvem gritos femininos vindos da  floresta, o irmão do anão dá grande importância ao fato, mas o anão parte em socorro floresta a dentro, chegando ele se depara com uma jovem sendo atacada por alguns homens, o anão usa então sua espada, bravura e ajuda de seu irmão que partiu em seu encalço para espantar os homens antes que conseguissem violentar a moça. A moça fica muito abalada com a situação, se diz filha de algum camponês na região e fica muito agradecida com o anão, ele então a leva para sua casa para que ela seja alimentada e tenha seus ferimentos curados, nesse processo eles se “apaixonam” e o anão a pede em casamento. Porém o pai do anão, um senhor de grandes posses e influência no reino, fica indignado com a decisão do filho de se casar com uma simples camponesa, outro ponto a se destacar é que o anão já não gozava de muito prestígio com o pai, a mãe do anão morreu ao dar a luz, a opinião do pai  parece ser que o anão "deu" pelo menos dois motivos para não ser amado, “matou” a mãe ao nascer e era um anão

O pai então questiona o irmão mais velho sobre como se deu essa aproximação entre o anão e a camponesa, nesse momento da narrativa o irmão mais velho revela que tudo não passou de uma cena armada por ele para que o irmão tivesse um relacionamento com alguma mulher sem levá-lo diretamente ao prostíbulo, a camponesa era uma prostituta e os homens que a estavam atacando haviam sido contratados por ele também. Com isso o pai e o irmão vão ao encontro do anão e lhe revelam toda a verdade, ele, claro, apaixonado recusasse a acreditar, para convencê-lo da verdade o pai oferece a camponesa uma moeda de prata para cada homem que ela “servir”, e obriga o anão a assistir todo “serviço” prestado por ela, eis que quando a moça cansa de prestar o “serviço” ela já ganhou mais moedas de prata do que pudesse carregar sozinha.
Apesar de tudo o anão não consegue desgostar da camponesa e a procura pelo reino, porém não conseguindo encontrá-la em lugar algum, desiste, e partir daí abraça a vida promíscua, indo de bordel em bordel incapaz de se relacionar afetivamente de novo.

Imagino que dois sentimentos devem ser o que mais mantém o anão traumatizado, primeiro o de ter dado o seu melhor a uma mulher que não existia, não da forma que ele achava que ela era pelo menos, e segundo, a saudade dessa mulher que não existia, o paradoxo de saber que a amada nunca existiu e mesmo assim não conseguir deixar de amá-la, e até por isso ele vive com a esperança no seu interior que ela não era uma prostituta, e sim uma jovem pobre que se corrompeu perante o alto pagamento dado pelo pai (A título de comparação, uma moeda de prata comprava um cavalo no ambiente do livro).

Essa parte é a pior.



Obs: mais a frente no livro, o Anão mata a prostituta ,que ouviu esse relato, enquanto ela dormia nua na cama do pai do anão, e em seguida ele mata o pai também. Sim, uma vingança pelo caso da jovem camponesa e outros maus tratamentos dados ao anão ao longo da vida.